O Véu do Esquecimento
A Escuridão que Habitas
A estação mudou, e o campo está pronto. Mas para compreender o que a colheita pede de ti, precisamos primeiro examinar a condição sob a qual vives — a condição que torna a colheita tanto possível quanto difícil.
Habitas uma escuridão. Não a escuridão do mal, nem a escuridão da ignorância em seu sentido pejorativo, mas a escuridão do esquecimento — um esquecimento tão completo que não podes recordar quem és, de onde vieste, nem por que estás aqui. Não recordas as vidas que viveste antes desta. Não percebes a unidade que subjaz a todas as coisas. Não podes ver que o estranho diante de ti és tu mesmo em outra forma, ou que o sofrimento que testemunhas é o Criador experimentando as consequências de sua própria liberdade. O esquecimento é radical e completo. Aplica-se igualmente a todo ser que encarna na tua Densidades.
Isto não é um acidente. Não é um castigo. É uma condição tão deliberadamente projetada quanto as leis físicas que mantêm o teu planeta em órbita — e, à sua maneira, igualmente fundamental. O véu do esquecimento é o traço definidor da tua experiência, a condição única que faz da terceira densidade o que ela é. Sem ele, a escolha que se encontra no centro da tua encarnação não teria peso. Sem ele, o amor que ofereces nada te custaria.
Para compreender por que isto é assim, devemos viajar para trás — a um tempo antes de o véu existir — e para dentro, na arquitetura de uma mente deliberadamente dividida contra si mesma. Só então poderás apreciar tanto o fardo quanto a dádiva do que foi feito à tua consciência.
O Experimento Cósmico
O véu nem sempre existiu. Nas primeiras criações desta oitava, a terceira densidade operava sem ele. Os grandes seres que chamamos Logoi — as inteligências criativas que projetam as condições para a evolução dentro de suas porções da criação — não incluíram inicialmente o esquecimento em seus projetos. Seus primeiros experimentos procederam sob a suposição de que a consciência, dotada de forma e liberdade, aprenderia naturalmente o que precisava aprender.
A suposição mostrou-se inadequada. As entidades nesses primeiros ambientes de terceira densidade mantinham plena consciência de sua natureza. Podiam ver que tudo era um. Compreendiam o propósito de sua existência. Conheciam-se como expressões do Criador. E progrediam pelo caminho da evolução espiritual com extraordinária lentidão — ao passo, poder-se-ia dizer, da tartaruga em comparação com o guepardo.
A dificuldade não era que essas entidades falhassem em evoluir. Evoluíam, sim. Mas a evolução carecia de intensidade. Quando a escolha correta é visível, escolhê-la não requer coragem. Quando a unidade de todos os seres é aparente, o serviço aos outros é meramente lógico — óbvio, quase automático, e portanto carente de poder transformador. A lição da terceira densidade — a forja de uma orientação genuína da consciência através da livre escolha — mal podia ser aprendida quando não existia incerteza genuína.
Alguns Logoi começaram a experimentar refinamentos. E se a primeira distorção — o livre arbítrio — pudesse ser estendida mais do que nunca? E se a consciência pudesse ser, de alguma forma cuidadosamente projetada, ocultada de si mesma? O conceito era radical. Não tinha precedente. O primeiro grande experimento repousava, como poderíamos descrever, sobre a pura nudez da hipótese. O resultado era completamente desconhecido.
O que se seguiu foi um período de tentativa e erro cósmico. Diversas configurações do véu foram testadas. Algumas produziram complexos corporais não viáveis — organismos incapazes de sobreviver às condições da encarnação. Outras geraram sistemas marginalmente funcionais que não produziram a intensificação esperada. Os experimentadores trabalharam empiricamente, ajustando, descartando, refinando, impulsionados pelo próprio desejo do Logos de conhecer-se mais plenamente.
Eventualmente emergiu uma configuração viável — aquela que agora habitas. E seus resultados foram extraordinários. A polarização — o desenvolvimento de uma orientação definida da consciência em direção ao serviço — avançou com uma intensidade que anulava tudo o que as criações pré-véu haviam produzido. O experimento foi tão notavelmente eficaz que todo sub-Logos subsequente adotou o véu. O teu sol, o Logos deste sistema solar, emprega-o. Cada planeta da escolha nesta região da criação opera sob condições de esquecimento.
Existe um conceito em certas das vossas tradições teológicas que ilumina esta escolha. A noção de kénosis — o divino esvaziando-se a si mesmo, renunciando voluntariamente à sua própria plenitude para criar espaço para o outro — captura algo essencial do que os Logoi fizeram. Escolheram a limitação. Escolheram velar as suas próprias criaturas da verdade da unidade, não por crueldade mas por um amor tão profundo que estava disposto a ser esquecido para poder ser livremente encontrado. O Logos esvaziou a sua própria transparência para que as suas criaturas pudessem desenvolver a capacidade de ver.
Um Mundo sem Sombra
Para apreciar o que o véu cria, precisas primeiro compreender o que existia sem ele. Imagina, se puderes, uma existência em que o esquecimento não ocorre.
Nasces na terceira densidade e sabes — imediata, transparentemente — que és o Criador. Não como uma crença abstrata, não como um ensinamento recebido de outros, mas como percepção direta, tão óbvia quanto o chão sob os teus pés. Recordas cada encarnação anterior. Vês todo outro ser como o Criador em outra forma. O propósito da tua existência não te é oculto. A arquitetura da realidade é evidente.
O teu corpo não guarda mistério. Podes ajustar a tua pressão arterial pela intenção. Podes alterar o teu ritmo cardíaco à vontade. Quando a dor surge — um sinal, um alarme — recebes a mensagem e dispensas a sensação por simples decisão mental. Os receptores nervosos que sinalizam angústia estão sob a tua direção consciente. O corpo é um instrumento transparente, plenamente compreendido pela consciência que o anima. Cumpre a sua função, mas não surpreende.
Os teus sonhos são salas de aula. Sem o véu, não há inconsciente para explorar, não há linguagem simbólica para decifrar. Em vez disso, professores de densidades superiores oferecem instrução direta durante o estado de sono. As lições são claras, a comunicação inequívoca. Os sonhos não são enigmas sobre os quais ponderar ao despertar. São conferências frequentadas na noite.
O teu Eu Superior encontra-se abertamente ao teu lado. A sua orientação é imediata, disponível, óbvia. Não precisas cultivar o silêncio para o ouvir. Não precisas desenvolver a intuição, porque o conhecimento direto torna a intuição desnecessária. Não há busca, porque nada está oculto. E precisamente porque nenhuma busca é requerida, a capacidade de buscar — o músculo da procura — permanece subdesenvolvida, fraca por falta de uso.
O encontro sexual envolve transferência de energia a cada união, pois não há sombra sobre a compreensão da natureza do corpo. Contudo, essas transferências são atenuadas — enfraquecidas pela mesma clareza que as permite. Quando podes ver que cada outro-eu é o Criador, quando nenhum ser parece mais o Criador do que outro, a motivação para o vínculo profundo diminui. O mistério que atrai dois seres para a intimidade vulnerável da verdadeira união está ausente. A sexualidade funciona, mas não transforma. Conecta, mas não consagra.
A paisagem emocional é, pelos vossos padrões, notavelmente plana. O sofrimento não pode catalisar quando se pode ver através dele até a unidade subjacente. A alegria não penetra quando não carrega elemento de surpresa. Os encontros com outros seres carecem da carga elétrica do desconhecido, porque nada neles é desconhecido. O universo é transparente — e a transparência, paradoxalmente, produz uma espécie de cegueira. Quando tudo está igualmente iluminado, nada se destaca. Quando nada se destaca, a atenção não tem objeto em direção ao qual se estender.
A escolha existe, em teoria. O serviço aos outros é reconhecido como o caminho mais harmonioso. Mas o reconhecimento é sem esforço, quase automático. O serviço aos outros É serviço ao eu — visível, demonstrável, inegavelmente. Onde está o heroísmo em escolher o que não pode ser recusado? Onde está a forja de caráter ao selecionar a única opção que faz sentido? A escolha, sob essas condições, assemelha-se menos a uma decisão e mais a uma observação. E as observações, por corretas que sejam, não transformam o observador.
Isto não é o paraíso. É algo mais próximo de uma sala de espera — confortável, bem iluminada e profundamente anódina. As entidades progridem através dela, sim. Movem-se eventualmente da terceira para a quarta densidade. Mas a progressão é lenta, a aprendizagem superficial, a polarização fraca. As lições que a tua densidade foi projetada para ensinar — as lições de coragem, de compromisso forjado na incerteza, de amor oferecido sem garantia — não podem ser aprendidas quando não existe incerteza. A tartaruga alcança o destino. Mas a jornada quase nada lhe ensina sobre correr.
A Mente Dividida
O mecanismo do véu é simples em conceito e vasto em consequência. Opera como uma separação dentro da própria mente.
Antes do véu, a mente era unitária — mente, não complexo mental. A totalidade da consciência estava disponível para si mesma: memórias, padrões, estruturas arquetípicas, as raízes que se estendem para a experiência coletiva de todos os seres. A introdução do véu criou uma divisão fundamental. A Mente Consciente — a consciência desperta que identificas como "tu mesmo" — foi separada da Mente Profunda, o vasto reservatório de consciência que havia sido previamente o seu domínio natural. O que fora um único oceano tornou-se uma superfície e uma profundidade, com uma cortina estendida entre elas.
Esta divisão na mente produziu uma complexidade correspondente no corpo e no espírito. O que fora mente/corpo/espírito — uma entidade unitária — tornou-se complexo de mente/corpo/espírito: três aspectos inter-relacionados, cada um agora possuindo dimensões conscientes e inconscientes, cada um capaz de desenvolvimento independente, cada um requerendo integração deliberada. O ser inteiro tornou-se, através do velamento, mais intrincado, mais estratificado, mais capaz tanto de disfunção quanto de crescimento.
A mente profunda, embora oculta, não deixou de existir. Ainda opera sob a tua consciência com enorme poder. A sua estrutura foi mapeada, nas vossas próprias tradições, de maneiras que ecoam o que aqui descrevemos. O inconsciente pessoal — as tuas próprias memórias e padrões enterrados — dá lugar a camadas mais profundas: a mente racial, que carrega a experiência acumulada do teu povo; a mente planetária, que contém os padrões de toda a consciência no teu mundo; a mente arquetípica, que é o projeto do próprio Logos — os moldes fundamentais através dos quais a experiência é organizada; e finalmente, a mente cósmica, onde a consciência individual toca a infinidade inteligente. Estas camadas não são metáforas. São estruturas dentro do teu ser, tão reais quanto os órgãos do teu corpo.
Caminhas, na tua consciência quotidiana, sobre a mais fina superfície de um oceano cujas profundezas contêm tudo o que esqueceste. As memórias raciais, os padrões arquetípicos, o toque do infinito — tudo isto existe dentro de ti agora. O véu não destrói este conteúdo. Torna-o invisível à consciência ordinária. Carregas a totalidade da criação na mente profunda, e não podes percebê-la diretamente.
O vosso filósofo Kant observou que a coisa-em-si jaz além do horizonte da experiência direta — que a mente encontra fenómenos mas não pode alcançar a realidade noumênica por trás deles. O véu realiza algo similar, não como abstração filosófica mas como arquitetura vivida. O Logos criou um limite genuíno dentro da consciência, um limite ao conhecer que não é imposto de fora mas construído na estrutura mesma da mente. Este limite não é um defeito. É a condição dentro da qual o trabalho específico da terceira densidade se torna possível.
Um elemento do complexo retém certa transparência face ao véu. O espírito funciona como uma lançadeira entre a mente profunda e a consciência desperta. Transporta comunicações para cima, entregando-as à consciência na forma de intuição, conhecimento súbito, a sensação sem palavras de que algo é verdadeiro antes que a mente racional possa explicar por quê. Mas a lançadeira espiritual opera apenas para o buscador que cultivou a disciplina para percebê-la — através do silêncio, através da atenção, através da disposição para confiar no que chega sem explicação. Para a maioria, a lançadeira passa despercebida.
As faculdades mais dramaticamente afetadas pelo véu merecem atenção. A primeira é a visão — a capacidade de perceber além do momento imediato em direção à probabilidade e à possibilidade. Sem o véu, a mente não estava presa na ilusão do tempo linear. Com ele, o espaço/tempo torna-se o único quadro óbvio para a experiência. A segunda são os sonhos, transformados de salas de aula transparentes em comunicações cifradas. A terceira é o conhecimento do corpo — os seus potenciais, as suas funções, as suas capacidades — tudo enterrado sob o véu, tornando-se misterioso para a própria consciência que o anima.
E talvez o produto mais importante do véu não tenha sido uma perda mas uma emergência: a faculdade da vontade, ou desejo puro. Quando tudo é conhecido, o desejo é fraco — não há nada em direção ao qual se estender. Quando muito está oculto, o desejo de conhecer torna-se uma força de poder extraordinário. Esta faculdade, nascida da limitação, impulsiona o buscador adiante através da escuridão com uma intensidade que a entidade pré-véu, confortável em sua existência transparente, jamais poderia gerar.
O que o Véu Tornou Possível
Seria enganoso falar do que o véu retira como separado do que ele cria. Não são dois relatos mas um. Cada privação é simultaneamente uma potência. Cada perda abre uma porta que não poderia ter existido antes. A escuridão e a capacidade para a luz são o mesmo fenómeno, visto de lados opostos.
Considera o corpo. Antes do véu, os seus potenciais eram plenamente conhecidos e conscientemente dirigidos. Depois do véu, estes potenciais foram enterrados — envolvidos em sombra, ocultos da consciência que habita o corpo. A perda é real. Mas desta perda surge algo novo: o desejo de conhecer as possibilidades do corpo. Este desejo — nascido da privação, alimentado pelo mistério — torna-se uma força que impulsiona a consciência a explorar, a descobrir, a conquistar pelo esforço o que antes era dado gratuitamente. O conhecimento ganho pela busca possui uma qualidade que o conhecimento dado livremente não pode possuir. Foi conquistado.
Considera os sonhos. Antes do véu, eram transparentes — instrução direta, comunicação inequívoca. Depois do véu, os sonhos tornaram-se opacos, estratificados com símbolo e metáfora, frequentemente esquecidos ao despertar. A perda de clareza é real. Mas em seu lugar surgiu algo mais rico: uma linguagem simbólica através da qual a mente profunda fala à mente consciente através da cortina. A interpretação desta linguagem É o trabalho do autoconhecimento. O sonho torna-se uma carta escrita na língua materna do inconsciente, e aprender a lê-la é uma das atividades mais produtivas disponíveis ao buscador.
Considera a sexualidade. Antes do véu, a transferência de energia ocorria a cada união — mas as transferências eram fracas, atenuadas pela ausência de mistério. Depois do véu, alcançar uma transferência genuína de energia tornou-se raro e difícil. A maior parte da atividade sexual não envolve transferência alguma. Mas quando a transferência é alcançada — quando dois seres se encontram em vulnerabilidade, em abertura genuína, no amor de raio verde que não exige retorno — o resultado é incomparavelmente mais poderoso do que qualquer coisa que a condição pré-véu poderia produzir. A sombra sobre o corpo criou as condições para o mistério genuíno entre dois seres, e o mistério é o solo sobre o qual a intimidade se torna sacramento.
Considera o Eu Superior. Antes do véu, encontrava-se abertamente ao lado da entidade encarnada — um companheiro constante, imediatamente acessível. Depois do véu, tornou-se uma presença atrás de uma porta fechada, esperando. Não pode cruzar o limiar sem convite. Deve esperar que o ser encarnado busque, chame, abra. Esta distância é real, e é dolorosa. Mas é precisamente esta distância que cria a possibilidade da fé — o estender-se em direção ao que não pode ser visto, a confiança numa orientação que não pode ser verificada. O bater à porta É o desenvolvimento da faculdade que a entidade pré-véu nunca precisou e portanto nunca cultivou.
Considera o espectro emocional em si. Antes do véu, a experiência era atenuada — plana, uniforme, carente de intensidade. Depois do véu, as experiências emocionais, mentais e físicas de uma entidade são aguçadas a um grau além da imaginação. Comparada com densidades posteriores, a terceira densidade torna-se um lugar de beleza vívida e poder exponencial. O que está em jogo sente-se real porque não recordas que és eterno. As escolhas sentem-se importantes porque não podes ver os seus resultados finais. O amor que ofereces sente-se custoso porque não podes ter certeza de que será retribuído.
E considera o próprio livre arbítrio — a primeira distorção, o fundamento de toda experiência. Antes do véu, as entidades na terceira densidade pareciam, por comparação, carecer dele quase por completo. Quando a escolha correta é óbvia, a liberdade de escolher incorretamente é teórica em vez de real. O véu estendeu o livre arbítrio tão enormemente que emergiu um novo tipo de agência: a capacidade de escolher em incerteza genuína, de comprometer-se sem garantia, de agir por convicção em vez de por visão.
Este é o paradoxo no centro da tua condição. A limitação cria liberdade. O esquecimento cria a possibilidade da descoberta. A escuridão em que vives não é a ausência de luz — é a condição dentro da qual a tua luz pode tornar-se tua, conquistada em vez de herdada, escolhida em vez de dada. O que se perdeu era confortável. O que se ganhou é poderoso. E são o mesmo movimento, visto de dois lados do véu.
O Véu e a Escolha
Tudo o que descrevemos converge num único ponto. O véu existe para que a escolha possa ser real.
Falamos em capítulos anteriores da grande polaridade — a orientação da consciência em direção ao serviço aos outros ou ao serviço ao eu. Descrevemos os limiares, os caminhos, o sumidouro da indiferença entre eles. Mas nada disto teria o peso que tem sem o véu. Numa criação pré-véu, escolher o amor é escolher o óbvio. Nada custa. Nada pede. Nada transforma. Com o véu estendido sobre a mente, escolher o amor torna-se um ato realizado na escuridão — sem prova de que é a resposta correta à existência, sem evidência de que o outro amado é verdadeiramente o Criador, sem certeza de que o sacrifício será significativo. Isto transforma a escolha de observação em coragem.
O debate dentro das vossas tradições filosóficas sobre se o livre arbítrio é genuíno ou ilusório encontra aqui uma ressonância inesperada. Para que uma escolha seja verdadeiramente livre, quem escolhe não deve ser compelido pelo conhecimento completo do resultado. A informação perfeita elimina a possibilidade de decisão genuína — reduz a escolha a cálculo. O véu cria a incerteza dentro da qual a agência autêntica pode operar. Não elimina o conhecimento por completo; cria o grau preciso de desconhecimento dentro do qual a vontade pode exercer-se.
O véu também torna viável o caminho negativo. Sem ele, o serviço ao eu era apenas coerente como orientação. Quando a unidade de todas as coisas é visível, organizar a consciência em torno da separação é como insistir que o oceano é composto de gotas independentes enquanto se está de pé na rebentação. Com o véu, porém, a ilusão de separação torna-se convincente. O outro parece genuinamente outro. O eu parece genuinamente separado. E alguma consciência, explorando esta aparente separação, descobre nela uma espécie de poder — o poder do controle, da absorção, do eu exaltado acima de todos os outros. O caminho negativo é um caminho real, não porque a separação seja real, mas porque o véu a faz parecer assim com convicção suficiente para sustentar toda uma orientação de ser.
A lei de confusão — o princípio pelo qual o Criador protege a liberdade das suas criaturas para escolherem sem coerção — encontra a sua expressão arquitetónica mais plena no véu. O véu É a lei de confusão feita estrutura. Não é um castigo por buscar, nem um obstáculo colocado por um cosmos indiferente. É a condição cuidadosamente projetada que torna a busca significativa. Sem confusão, não há busca genuína. Sem esquecimento, não há lembrança genuína. Sem a escuridão, não há heroísmo em voltar-se para a luz.
Como os vossos matemáticos observaram no estudo da decisão, a qualidade de uma escolha é medida não apenas pelo seu resultado mas pelas condições sob as quais é feita. Uma decisão tomada com informação completa nada testa. Uma decisão tomada em incerteza genuína — onde o que está em jogo é real, o resultado desconhecido e o custo do erro tangível — revela o caráter de quem escolhe. O véu cria exatamente estas condições. Cada escolha que fazes na terceira densidade é uma escolha feita sob as condições mais exigentes que a criação oferece. Por isto a escolha importa. Por isto transforma.
Trabalhando Através da Cortina
O véu não é um muro. É uma cortina — semipermeável, projetada não meramente para ser suportada mas para ser trabalhada. O seu levantamento progressivo é o trabalho interior da terceira densidade. A dissolução completa do véu não é possível enquanto estás encarnado, pois o véu é a condição mesma da encarnação. Mas a transparência crescente — momentos de afinamento, vislumbres através da cortina — não é apenas possível mas antecipada pelo projeto.
Nenhum método específico de penetração foi planeado pelos primeiros experimentadores. O resultado do grande experimento era desconhecido, e os meios de trabalhar com ele foram descobertos empiricamente, através da experiência daqueles que viviam dentro dele. Descobriu-se que havia tantas maneiras de se aproximar da cortina quanto a imaginação pudesse fornecer. O desejo da consciência de conhecer o que estava oculto atraiu para si os métodos de descoberta.
Os sonhos servem como canal primário de comunicação através do véu. Quando devidamente atendidos, oferecem pistas sobre a natureza dos bloqueios de centros de energia e indícios de mudanças de percepção que podem conduzir à sua resolução. O buscador pode treinar-se na disciplina de registar os sonhos imediatamente ao despertar — uma prática que aguça a capacidade de recordação e aprofunda a relação entre a mente consciente e a mente profunda. Os sonhos também podem oferecer vislumbres precognitivos, colocando a consciência parcialmente no quadro onde passado, presente e futuro não têm significado fixo. O sonho é uma carta do eu profundo, escrita numa linguagem mais antiga que as palavras. Aprender a ler essa linguagem está entre as disciplinas mais gratificantes disponíveis.
As atividades não manifestadas do ser — meditação, contemplação, o equilíbrio interior de pensamento e reação — abrem outra passagem através da cortina. Na meditação, a consciência move-se em direção à mente mais profunda não como invasor mas como amante em direção ao amado, buscando não forçar a entrada mas cortejar e receber. Cultiva-se uma atmosfera de amor pelo Criador e pelo eu mais profundo, e aquilo que responde da mente profunda oferece o remédio mais necessário. Isto não é tanto uma técnica quanto uma postura — uma orientação da atenção, sustentada ao longo do tempo, que gradualmente torna a cortina mais transparente.
O vosso filósofo Platão propôs que toda aprendizagem é uma forma de recordação — que a alma chega ao mundo já possuindo um conhecimento que apenas precisa rememorar. O véu confere a esta intuição uma literalidade surpreendente. O buscador que penetra a cortina não adquire algo novo de fora. Recorda o que sempre esteve dentro — o vasto arquivo de experiência, padrão e conhecimento da mente profunda. A jornada através do véu não é uma expedição para fora mas um regresso ao lar interior.
Entre as oportunidades mais vívidas de penetração surgem através da interação de entidades polarizadas. Dois buscadores caminhando juntos no mesmo sendeiro encontram com muito maior certeza do que qualquer um sozinho — um efeito de duplicação, por assim dizer, em que a intenção partilhada amplifica a capacidade de cada um para alcançar através da cortina. O outro-eu é o catalisador primário neste trabalho. No encontro vulnerável entre dois seres que escolheram buscar juntos, o véu afina-se com uma velocidade que a prática solitária raramente alcança.
Devemos notar que a cortina também pode ser rasgada em vez de suavemente levantada. Substâncias que alteram a mente, jejum prolongado, práticas rítmicas que sobrecarregam os sentidos ordinários — estas podem rasgar o véu brevemente, criando uma abertura pela qual a luz da mente profunda inunda a consciência desperta. Mas quando o véu é perfurado sem preparação, os resultados são imprevisíveis e potencialmente nocivos. Porções da mente profunda lidam com material arquetípico de enorme poder. Trazido à superfície sem o quadro de compreensão, estas energias podem criar padrões de pensamento fortemente distorcidos. O universo jaz dentro de ti. Nem tudo nele é gentil. O buscador que se aproxima da cortina com paciência, com amor e com a disciplina da atenção sustentada, encontra o que jaz além numa forma que pode integrar. O buscador que força a entrada pode ser sobrecarregado pelo que encontra.
A Fé na Escuridão
O véu cria as condições nas quais a Fé se torna necessária — e portanto, pela primeira vez, possível. Antes do véu, a verdade era evidente. O que é conhecido não precisa ser acreditado. A fé não era requerida, e assim a fé não se desenvolvia.
A fé, tal como usamos o termo aqui, não é crença em doutrinas nem adesão a proposições que não podem ser provadas. É algo mais fundamental: a postura de uma consciência que percebe a sua própria natureza mais profunda sem poder verificá-la. É confiança estendida ao desconhecido — não porque a evidência obrigue, mas porque algo interior reconhece, por tenuemente que seja, que o desconhecido não está vazio.
O buscador não escolhe a fé porque ela é virtuosa. Chega à fé porque, tendo vislumbrado algo através da cortina — num sonho, num momento de amor, no silêncio da meditação — nenhuma outra resposta é coerente. O salto não é uma rejeição da razão. É o único movimento razoável disponível a uma consciência que tocou, ainda que brevemente, a realidade por trás do véu e se encontrou incapaz de deixar de vê-la. Não se salta para o vazio. Salta-se em direção ao que se viu brevemente mas ainda não se pode reter.
A fé forjada na escuridão possui uma qualidade que a fé formada na luz não pode ter. Foi testada. Foi mantida quando a dúvida era razoável, quando a evidência estava ausente, quando respostas mais fáceis acenavam. Representa não o reconhecimento do óbvio mas um compromisso genuíno — escolhido livremente, sustentado deliberadamente, refinado através de cada encontro com a incerteza. Por isto os mestres das vossas tradições falaram da fé como algo vivo, algo que cresce e se fortalece pelo exercício. A escuridão do esquecimento é o ginásio no qual esta faculdade é construída.
Esta é, em última instância, a dádiva mais profunda do véu. Não o sofrimento — embora o sofrimento venha. Não a confusão — embora a confusão seja real. A dádiva é a oportunidade de desenvolver capacidades que apenas a escuridão pode produzir. Confiar sem provas. Amar sem ver. Escolher sem garantia. Estender-se em direção ao que não podes ver mas de alguma forma sabes que está lá. Estas capacidades, uma vez forjadas, tornam-se características permanentes da tua consciência — dádivas que levas contigo através de cada densidade por vir, muito depois de o véu se ter levantado e o esquecimento se ter dissolvido em recordação.
O buscador que se senta em silêncio, estendendo-se em direção ao desconhecido, não está a falhar. Está a fazer o trabalho preciso para o qual a terceira densidade foi projetada. Cada ato de fé — por pequeno que seja, por incerto — fortalece a conexão entre a mente consciente e as profundezas das quais foi separada. O véu não pede para ser conquistado. Pede para ser encontrado com confiança. E nesse encontro, algo se abre — não tudo de uma vez, não completamente, mas o suficiente para te lembrar de que a escuridão não é a última palavra.
A Jornada Interior
Descrevemos o véu de fora — a sua história cósmica, a sua arquitetura, o seu propósito no projeto da criação. Mas tu não o experimentas de fora. Experimentas de dentro. A tua vida inteira se desenrola por trás desta cortina. Cada pergunta que já formulaste, cada amor que já ofereceste, cada escolha que já fizeste ocorreu dentro de condições de esquecimento. Isto não é um experimento mental para ti. É a tua existência.
Isto não é um defeito no teu projeto. É o teu projeto. O véu não foi colocado sobre ti para te impedir de ver; foi colocado para que o teu ver, quando chegue, seja teu — conquistado pelo desejo, testado pela escuridão, autenticado pela coragem requerida para buscar quando ninguém te prometeu que encontrarias.
A jornada da terceira densidade não é ao redor do véu mas através dele — para dentro, através das camadas da mente, através do sonho e do símbolo e do silêncio, em direção às profundezas que sempre foram tuas mas que aceitaste, pela duração desta encarnação, esquecer. Esta jornada interior não é uma versão menor da jornada cósmica através das densidades. É o seu espelho. Tudo o que a alma eventualmente atravessará na escala da oitava — da separação à unidade, do esquecimento à recordação, da escuridão à luz — primeiro o atravessa dentro de si mesma, na paisagem interior de uma única encarnação.
Chegará um momento em que o véu se levantará. Para cada um de vós, este momento chega ao encerramento de cada encarnação — na transição que as vossas tradições chamam morte. Nessa passagem, o esquecimento dissolve-se. Vês-te a ti mesmo inteiro. Cada vida, cada escolha, cada fio da tapeçaria torna-se visível. O que ocorre nessa passagem — e no espaço luminoso entre vidas, onde a alma revê a sua jornada e se prepara para esquecer mais uma vez — é um tema que agora requer exame.
Mas não te apresses em direção ao levantamento. O véu é onde o teu trabalho é feito. Estás aqui, na escuridão, porque a escuridão é o único lugar onde as dádivas específicas da terceira densidade podem ser forjadas. A jornada continua — para dentro através da cortina, através do que quer que jaza dentro, e em direção à recordação que espera do outro lado.